Conjugação Verbal do Uomé

O sistema verbal do Uomé organiza-se principalmente por partículas que acrescentam informações de aspecto, anterioridade, modo e validação predicativa. Essas partículas não correspondem diretamente às terminações verbais das línguas flexionais: cada uma acrescenta uma camada semântica específica e, quando compatíveis, podem ser combinadas.

Visão geral do sistema verbal

Marcador

Categoria

Valor principal

Equivalência aproximada

Exemplo em Uomé

Português

Indicativo real

Fato, verdade geral ou ação apresentada como real

presente / valor não marcado

Wa kapomo kas̆imĩ.

Eu faço a tarefa.

s̆u

Aspecto concluído

Evento realizado, completo ou delimitado

pretérito perfectivo

Wa s̆u kapomo kas̆imī.

Eu fiz a tarefa.

Aspecto progressivo

Ação em andamento

estar + gerúndio

Wa dō ys̆ika.

Eu estou olhando.

Aspecto prospectivo

Ação projetada, ainda não realizada

futuro / vou + verbo

Wa hā ğāgra.

Eu falarei / vou falar.

ī

Anterioridade

Situa a referência antes de outro ponto temporal; combina-se com outros aspectos

anterioridade

Wa ī dō ys̆ika.

Eu estava olhando.

Modo hipotético

Hipótese, dúvida, desejo ou condição

subjuntivo hipotético

Wa hȳ kapomo kas̆imī.

Se eu fizesse a tarefa.

s̆uhca

Modo potencial

Ação possível ou dependente de condição

condicional / futuro do pretérito

Wa s̆uhca kapomo kas̆imi.

Eu faria a tarefa.

kcɔ

Modo volitivo

Ordem, comando ou vontade direta

imperativo

¡Kapomo kcɔ kas̆imī!

Faça a tarefa!

ja

Validativo / modal

Valida a predicação; no uso modal, apresenta realização desejada, admitida ou não assertada

subjuntivo presente / ênfase validativa

Wa kapomo ja kas̆imī.

Que eu faça a tarefa.

 Observação: kcɔ pode ser usado para reforçar explicitamente o valor volitivo quando o contexto já permite interpretar a construção como ordem.

Aspecto e anterioridade

Os marcadores aspectuais mostram como o falante apresenta o desenvolvimento do evento. A anterioridade ī não encerra a ação por si só; ela desloca a referência para um momento anterior e pode combinar-se com marcadores de andamento ou conclusão.

Formas básicas

Marcador

Valor

Descrição

Uomé

Português

s̆u

concluído

ação apresentada como realizada ou delimitada

Wa s̆u ys̆ika.

Eu olhei.

andamento

ação em execução

Wa dō ys̆ika.

Eu estou olhando.

projeto

ação ainda não realizada, mas projetada

Wa hā ys̆ika.

Eu olharei / vou olhar.

 

Combinações aspectuais

Forma em Uomé

Tradução aproximada

Valor principal

Wa dō ys̆ika.

Eu estou olhando.

ação atualmente em execução

Wa ī dō ys̆ika.

Eu estava olhando.

ação em execução num momento anterior

Wa s̆u dō ys̆ika.

Eu estive olhando.

período de ação continuada já encerrado

Wa s̆u ys̆ika.

Eu olhei.

ação realizada, vista como concluída

Wa ī s̆u ys̆ika.

Eu tinha olhado / já havia olhado.

ação concluída anteriormente a outra referência passada

 

ī dō — andamento em referência anterior

Wa ī dō ys̆ika.

Eu estava olhando.

ī situa a ação num momento anterior ao presente, enquanto dō mantém o foco em seu desenvolvimento. A construção não afirma que a ação já estivesse concluída naquele momento.

Wa ī dō ys̆ika pəfa, La s̆u latɔtūn.

Eu estava olhando a caixa quando ele chegou.

s̆u dō — atividade durativa já encerrada

Wa s̆u dō ys̆ika.

Eu estive olhando.

s̆u delimita o episódio completo como realizado, enquanto dō mostra que, dentro desse episódio, a ação permaneceu em desenvolvimento. As duas partículas não são contraditórias porque observam camadas diferentes do mesmo evento.

Wa s̆u dō ys̆ika ğas̆wē ho haz̆ɔ.

Eu estive olhando os escritos durante a manhã.

ī s̆u — anterioridade de ação concluída

Wa ī s̆u ys̆ika.

Eu tinha olhado. / Eu já havia olhado.

Nessa combinação, s̆u marca a execução como concluída e ī indica que essa conclusão ocorreu antes de outro momento ou acontecimento passado.

Wa ī s̆u ys̆ika pəfa, la s̆u tũlā tɔli.

Eu já tinha visto a caixa quando ele a levou.

Assim, ī s̆u não é usado neste sistema para expressar “eu fazia” ou “eu estava fazendo”. O valor de ação em andamento num momento anterior é expresso por ī dō.

Particípios

Os particípios distinguem três estágios aspectuais — concluído, andamento e projeto — e apresentam formas ativas e passivas.

Aspecto

Ativo

Passivo

Concluído

s̆ū

s̆ūka

Andamento

dōka

Projeto

hāka

 

A quantidade vocálica é distintiva no concluído: s̆u é o marcador aspectual concluído simples; s̆ū é o particípio ativo concluído; s̆ūka é o particípio/passivo concluído.

Exemplos de particípios

Em Esperanto

Em português

Em Uomé

Farinta la lecionon, li estas trankvila.

Tendo feito a lição, ele está tranquilo.

Kapomo s̆ū kas̆imī, mɛ samōsā.

Faranta la lecionon, li fariĝas trankvila.

Fazendo a lição, ele fica tranquilo.

Kapomo dō kas̆imī, mɛ samōsā.

Faronta la lecionon, li fariĝos trankvila.

Prestes a fazer a lição, ele ficará tranquilo.

Kapomo hā kas̆imī, mɛ samōsā.

Farita la leciono, li estas trankvila.

Com a lição feita, ele está tranquilo.

Kapomo s̆ūka kas̆imī, mɛ samōsā.

Farata la leciono, trankviligas lin.

A lição sendo feita o tranquiliza.

Kapomo dōka kas̆imī, mɛ samōsā.

Farota la leciono, trankviligas lin.

A lição que está para ser feita o tranquilizará.

Kapomo hāka kas̆imī, mɛ samōsā.

 

Voz passiva analítica

Na voz passiva analítica, as formas com -ka apresentam o referente como participante que recebe ou sofre a ação, mantendo a distinção aspectual entre conclusão, andamento e projeto.

Valor passivo

Uomé

Português

Concluída

Wa s̆ūka ys̆ika.

Eu fui observado / já fui observado.

Em andamento

Wa dōka ys̆ika.

Eu estou sendo observado.

Projetada

Wa hāka ys̆ika.

Eu serei observado / vou ser observado.

 

Modos

hȳ — modo hipotético

Indica hipótese, dúvida, desejo ou condição.

Wa hȳ kapomo kas̆imī.

Se eu fizesse a tarefa.

s̆uhca — modo potencial

Indica uma ação possível ou dependente de condições.

Wa s̆uhca kapomo kas̆imi.

Eu faria a tarefa.

kcɔ — modo volitivo

Indica ordem, comando ou vontade direta; pode reforçar explicitamente o mando.

¡Kapomo kcɔ kas̆imī!

Faça a tarefa!

ja — marcador validativo e modal

O núcleo de ja é a validação da predicação. Conforme a posição e o escopo, pode marcar modalidade equivalente ao subjuntivo presente, explicitar a predicação nuclear ou reforçar pragmaticamente uma proposição. Não corresponde lexicalmente à palavra portuguesa “sim”.

Wa kapomo ja kas̆imī.

Que eu faça a tarefa.

Uso modal pós-verbal

No uso modal, ja vem imediatamente depois do verbo e antes dos complementos que pertencem a esse verbo. Nesse emprego, apresenta a ação como desejada, admitida, subordinada ou não afirmada como fato independente, podendo corresponder ao subjuntivo presente em português.

Wa ūnʘ wilɛ ja wa ẽcẽ.

Eu não gosto que me rocem.

A sequência wilɛ ja wa mostra o escopo: ja modaliza wilɛ, enquanto wa permanece como paciente da ação.

Uso predicativo nuclear

Em predicações nominais ou adjetivais, ja pode tornar explícita a relação predicativa quando isso favorece a clareza. Nesse uso, não deve ser entendido como uma cópula lexical genérica, mas como marcador de validação e estabelecimento da predicação.

Le ja Marie.

Ela realmente é Marie.

Quando a predicação precisa ser situada aspectualmente, ja pode introduzir o núcleo predicativo e ser seguido pelo marcador aspectual correspondente.

Mā cəvrūh bəs̆imo ja s̆u vrū o̊ waɛ̄.

O arranque da moto foi rápido e potente.

Uso pragmático de validação

Em posição final, ja pode validar ou reforçar a proposição inteira. Nesse contexto, traduções como “sim”, “mesmo”, “realmente” ou “de fato” podem surgir em português, mas são equivalências contextuais, não o significado lexical básico da partícula.

Wa kapomo ja.

Eu faço sim. / Eu faço de fato.

Resumo de posição e escopo

• verbo + ja + complemento → uso modal: Wa kapomo ja kas̆imī.

• sujeito + ja + predicado → predicação nuclear: Le ja Marie.

• sujeito + ja + aspecto + predicado → predicação situada: ... ja s̆u vrū o̊ waɛ̄.

• oração + ja → validação pragmática da proposição inteira.

Princípio geral de combinação

As partículas podem ser combinadas quando cada uma acrescenta uma camada semântica distinta. O sistema evita criar uma forma verbal independente para cada tempo ou modo equivalente do português e permite representar separadamente referência temporal, desenvolvimento, conclusão, modalidade e validação da predicação.

Combinação

Camadas

Resultado

ī dō

anterioridade + andamento

ação em execução num momento anterior

s̆u dō

realização delimitada + andamento interno

atividade durativa já encerrada

ī s̆u

anterioridade + realização concluída

ação já concluída antes de outra referência passada

 

O Uomé separa, portanto, o eixo aspectual/temporal do eixo modal/intencional. Essa organização permite que o falante indique não apenas quando um evento é situado, mas também como escolhe apresentar sua duração, seu desenvolvimento, sua conclusão e sua relação com outras referências temporais. Ja possui ainda usos predicativos e pragmáticos, cujo escopo é determinado sobretudo por sua posição na oração.

Regra de compartilhamento aspectual:Em uma sequência de predicados coordenados com o mesmo sujeito, uma partícula aspectual (s̆u, dō, hā e eventualmente combinações como ī dō) pode ter escopo sobre todos os predicados seguintes do mesmo bloco coordenado, enquanto não houver outra partícula que altere esse enquadramento.

Repetição opcional:
A partícula pode ser repetida para destacar a autonomia, sucessão ou delimitação individual de cada evento.

Repetição obrigatória:
Quando o segundo predicado possui aspecto, anterioridade ou modalidade diferente, seu marcador próprio deve ser expresso.

Isso também deixa a língua mais natural: há economia quando o significado é recuperável, mas permanece a possibilidade de explicitar cada verbo quando isso traz informação.

Portanto, para o exemplo neutro:

Tɔs̆uca s̆u fȳčər o̊ s̆hā qɔta.
O barro secou e se tornou duro.

Substâncias em função verbal

No Uomé, palavras que designam substâncias ou materiais podem ocupar diretamente a posição verbal. Nesse uso, indicam que a substância é aplicada, colocada ou introduzida em relação a um alvo.

A relação exata é determinada pela estrutura:

  • SUBSTÂNCIA + X → aplicar ou espalhar a substância sobre X, afetando sua superfície. Pode corresponder a “revestir”, “cobrir”, “embarrar”, “untar” etc., conforme a substância.
    Loro dō tɔs̆uca mā təsahɛ̄ nymatũ.
    Eles estão embarrando / cobrindo de barro a parede da casa.

  • SUBSTÂNCIA + X tɔ → colocar ou depositar a substância sobre X, sem implicar que ela seja espalhada ou integrada à superfície.
    tɔs̆uca X tɔ = colocar barro sobre X.

  • SUBSTÂNCIA + X ny → colocar ou introduzir a substância dentro de X. Conforme o contexto, pode corresponder a “encher” ou “preencher com”.
    Ra triğa s̆u tɔs̆uca lōs̆imẽ ny.
    O homem preencheu o buraco com barro.

Nem a construção direta nem ny implicam necessariamente cobertura ou preenchimento total; a completude depende do contexto ou de marcação específica.

As partículas verbais aplicam-se normalmente à substância verbalizada:

s̆u tɔs̆uca = aplicou/colocou barro
dō tɔs̆uca = está aplicando/colocando barro
hā tɔs̆uca = vai aplicar/colocar barro

A regra pode ser generalizada a outras substâncias quando semanticamente plausível. O significado básico permanece o mesmo: fazer a substância estabelecer uma relação material com o alvo; a sintaxe determina se há aplicação à superfície, deposição sobre ela ou introdução no interior.