Este artigo tem caráter exclusivamente literário e linguístico. A oração é utilizada como material de análise e criação, sem intenção de promover ou discutir práticas religiosas.
Tũlɛw Mā Dās̆oa Wamɛ
Mā Dās̆oa wamɛ, mɛ lɛ̄ Wēla,
s̆halɛ̄ʘə̄ dōka mā s̆hatɔli mɛ,
mā malaoh lɛ̄ Mɛ latɔtūn o̊ wamɛ e̊pomō lo.
kapomo īka kcɔ mā håūn, papa oɔhmatū o̊ Wēla jaka ja.
Cotɔuh kcɔ toē mā s̆lagə wame dōoh,
ğaz̆ahē kcɔ mā rə̄hca ho wamɛ
tɔpo wamɛ ğaz̆ahē tɔli rə̄hca wamɛ.
ũs̆imoh o̊e̊s̆ɔh kcɔ wamɛ he̊hyh uh ẽcẽ,
ũs̆imoh bəuh ja tɔ wamɛ yhuh.
Āmēn
Há línguas que descrevem o mundo.
O Uomé, aqui, faz outra coisa: ele organiza a experiência.
Nesta versão do Pai Nosso, não estamos apenas diante de uma tradução, mas de uma mudança de perspectiva. O texto deixa de ser uma sequência de pedidos dirigidos a uma entidade distante e passa a ser um processo de alinhamento — entre o aqui e o alto, entre o humano e o que o transcende.
🌌 O início: não um lugar, mas um eixo
Mā Dās̆oa wamɛ, mɛ lɛ̄ Wēla
“Pai nosso, vós no alto, no Céu.”
No Uomé, o Céu (Wēla) não é apenas um lugar. É um eixo vertical de referência.
A partícula lɛ̄ não localiza — ela orienta para cima.
A oração começa, portanto, não com uma posição, mas com uma direção de consciência.
E o próprio ato de rezar, tũlɛw, já carrega isso:
“daqui em direção ao alto”
Orar, aqui, não é falar. É projetar-se.
✨ Santificar: elevar com distância e cuidado
s̆halɛ̄ʘə̄ dōka mā s̆hatɔli mɛ
“Santificado seja o vosso nome.”
Santificar, em Uomé, não é apenas atribuir um valor sagrado.
É elevar mantendo a distância apropriada, com consideração.
O nome (s̆hatɔli) não é um rótulo. É aquilo que “se torna” alguém — um ponto de manifestação. Santificá-lo é colocá-lo no alto, sem tocá-lo indevidamente.
Há aqui uma ética implícita:
o que é elevado não é apropriado, é respeitado.
🌍 O Reino: não vir, mas integrar
Mā malaoh lɛ̄ Mɛ latɔtūn o̊ wamɛ e̊pomō lo.
“Venha a nós o vosso reino — e nós passemos a pertencer a ele.”
No português, o Reino “vem”.
No Uomé, ele se aproxima (latɔtūn) — e isso não basta.
É preciso um segundo movimento:
e̊pomō lo — “tornar-se parte dele”.
O Reino (malaoh) não é um território.
É a totalidade dos lugares sob pertencimento.
Assim, a oração não pede apenas a chegada de algo externo.
Ela reconhece:
o Reino só existe plenamente quando nos tornamos parte dele.
⚖️ A vontade: alinhamento entre domínios
Kapomo īka kcɔ mā håūn, papa oɔhmatū o̊ Wēla jaka ja.
“Que se faça a tua vontade, tanto na terra quanto no Céu, de fato.”
Aqui, o Uomé abandona a ideia de “obedecer” e adota algo mais estrutural:
-
kapomo īka → tornar-se feito
-
håūn → querer, desejar
-
papa… o̊… → tanto… quanto…
A vontade não é uma ordem.
É um estado de conformidade entre planos.
Terra (oɔhmatū) e Céu (Wēla) não são opostos — são domínios que devem coincidir.
A partícula jaka ja sela isso:
não como desejo vago, mas como realidade afirmada.
🍞 O sustento: continuidade, não instante
Cotɔuh kcɔ toē mā s̆lagə wame dōoh
“Dá hoje o nosso comer — continuamente.”
Aqui há uma das mudanças mais sutis e profundas.
O “pão de cada dia” torna-se:
-
s̆lagə → o ato de comer
-
dōoh → recorrência constante
Não se pede um objeto.
Pede-se a manutenção do fluxo da vida.
O alimento deixa de ser coisa e passa a ser processo sustentado.
💠 Perdão: dissolver a fricção
ğaz̆ahē kcɔ mā rə̄hca ho wamɛ
tɔpo wamɛ ğaz̆ahē tɔli rə̄hca wamɛ.
“Perdoa nossas falhas, assim como nós perdoamos.”
A palavra para ofensa (rə̄hca) nasce de uma imagem corporal:
um rangido, um desdém — algo que desalinha.
Perdoar (ğaz̆ahē) não é esquecer.
É transformar a tensão em quietude.
E o paralelismo com tɔpo (“assim como”) cria um espelho:
só há perdão recebido onde há perdão praticado.
🧭 Tentação e mal: dois tipos de perigo
ũs̆imoh o̊e̊s̆ɔh kcɔ wamɛ he̊hyh uh ẽcẽ,
ũs̆imoh bəuh ja tɔ wamɛ yhuh.
“E além disso, não nos deixes ir para a tentação;
e mais ainda, afasta de nós o mal.”
Aqui o Uomé revela uma distinção poderosa.
1. Tentação → direção
-
he̊hyh uh → ir em direção à tentação
-
ẽcẽ → negação final
👉 perigo como trajetória futura
2. Mal → relação
-
yhuh → o ruim
-
bəuh → fazer sair
-
tɔ wamɛ → da nossa esfera
👉 perigo como estado presente a ser removido
Essa diferença é crucial:
a tentação é algo para não entrar
o mal é algo para ser afastado
🔚 O fechamento: expansão contínua
A repetição de ũs̆imoh (“além disso”, “e vai além”) não é apenas conectiva.
Ela cria um efeito de expansão progressiva.
A oração não termina — ela se abre.
🌿 Conclusão: uma oração que é um caminho
O Pai Nosso em Uomé não é apenas um texto religioso.
É um modelo de como a língua entende o mundo:
-
relações, não posições
-
processos, não estados fixos
-
integração, não posse
-
alinhamento, não submissão
Orar, aqui, é entrar em coerência com o alto.
E talvez essa seja a essência mais profunda do texto:
não pedir que algo desça até nós,
mas tornar-nos capazes de subir — e pertencer.